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ACIV alerta para impacto das bets no comércio e no orçamento das famílias

Estudo da CNC estima que apostas on-line retiraram R$ 143 bilhões do varejo brasileiro nos últimos anos

O crescimento das apostas on-line no Brasil começa a acender um alerta também para o comércio. Isso porque parte do dinheiro que antes poderia ser utilizada pelas famílias na compra de produtos, contratação de serviços ou pagamento de dívidas passou a ser destinada às chamadas bets.

A Associação Comercial, Industrial, Agropecuária e Serviços de Varginha (ACIV) chama a atenção para os efeitos desse comportamento sobre o orçamento familiar e, consequentemente, sobre a economia e o comércio local.

Um levantamento divulgado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em abril deste ano, estima que cerca de R$ 143 bilhões deixaram de circular no varejo brasileiro entre janeiro de 2023 e março de 2026 em razão das apostas on-line.

Para se ter uma ideia da dimensão desse valor, segundo a própria CNC, ele é próximo ao volume movimentado pelo comércio brasileiro durante os Natais de 2024 e 2025 somados.

O levantamento também aponta que os gastos dos brasileiros com plataformas de apostas ultrapassaram a marca de R$ 30 bilhões por mês. A entidade estima ainda que o comprometimento da renda com jogos pode ter contribuído para levar aproximadamente 270 mil famílias à inadimplência severa, quando existem contas em atraso há mais de 90 dias.

Para o presidente da ACIV, André Yuki, o assunto precisa ser observado também do ponto de vista econômico.

“Quando uma pessoa compromete uma parte cada vez maior da sua renda com apostas, naturalmente sobra menos dinheiro para outras despesas. É um recurso que poderia ser usado no supermercado, em uma loja, em um restaurante, na contratação de um serviço ou mesmo para colocar as contas em dia. Quando isso acontece em grande escala, o comércio também sente”, afirma.

A dimensão das apostas no orçamento dos brasileiros já havia chamado a atenção do Banco Central. Em estudo divulgado em 2024, a instituição estimou que aproximadamente 24 milhões de pessoas realizaram pelo menos uma transferência via Pix para empresas de jogos e apostas durante o período analisado.

Na época, o volume mensal dessas transferências ficava entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões.

Outro dado que chamou atenção foi a participação das famílias de menor renda. Somente em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para empresas de apostas por meio do Pix, segundo estimativa do Banco Central.

Menos dinheiro disponível para o consumo

Na prática, quando parte da renda familiar é comprometida com apostas, o impacto pode chegar ao comércio de várias formas. O consumidor pode adiar uma compra, gastar menos, optar por produtos mais baratos ou ter mais dificuldade para manter seus compromissos financeiros em dia.

Para a ACIV, essa situação merece atenção principalmente porque boa parte da economia das cidades é movimentada por pequenos e médios negócios.

“O dinheiro gasto no comércio local continua circulando na própria economia. Ele ajuda a pagar funcionários, fornecedores, impostos e gera novos investimentos. Por isso, quando uma parcela significativa desses recursos deixa de chegar às empresas, o reflexo acaba sendo sentido por toda a cadeia”, ressalta André Yuki.

A preocupação da ACIV, no entanto, não é condenar quem eventualmente realiza uma aposta. A entidade defende que o debate seja feito principalmente pela ótica da educação financeira e do consumo consciente.

Desde janeiro de 2025, o mercado de apostas de quota fixa passou a funcionar de forma regulamentada no Brasil. Ainda assim, o crescimento do setor e o volume de dinheiro movimentado pelas plataformas têm aumentado a discussão sobre os impactos sociais e econômicos dessa atividade.

“Apostar precisa ser entendido como entretenimento, e não como investimento ou uma maneira de complementar a renda. Quando a aposta começa a comprometer o dinheiro necessário para as despesas da família, deixa de ser apenas uma questão individual e passa a ter reflexos  econômicos e sociais”, completa o presidente da ACIV.

A entidade considera importante ampliar as ações de conscientização e educação financeira, principalmente para que a população tenha clareza sobre os riscos de comprometer uma parcela cada vez maior da renda com apostas.

Os números apresentados pela CNC são estimativas baseadas em modelos econômicos e a metodologia utilizada no levantamento foi questionada por representantes do setor de apostas, que argumentam que o endividamento das famílias possui diversas causas. Ainda assim, os valores movimentados pelo segmento mostram que as bets já ocupam um espaço relevante no orçamento dos brasileiros e justificam uma discussão mais ampla sobre seus efeitos no consumo e na economia.

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