Ferramenta digital personaliza escolha de antidepressivos e reduz abandono de tratamento
Escolher o antidepressivo certo para cada paciente continua sendo um dos maiores desafios da prática clínica.
Um ensaio clínico randomizado internacional publicado no JAMA, em março, sugere que uma ferramenta digital pode ajudar a enfrentar essa questão. O sistema, chamado ferramenta PETRUSHKA — sigla em inglês para ‘personalização do tratamento antidepressivo combinando escolhas individuais, riscos e big data’ —, leva em conta as características clínicas de cada paciente e as preferências que ele mesmo expressa sobre quais efeitos adversos seria capaz de tolerar.
Com base nisso, a ferramenta gera uma lista com os três antidepressivos mais indicados para aquele indivíduo. Os resultados do ensaio mostram que essa abordagem superou o cuidado habitual tanto na manutenção do tratamento quanto na melhora dos sintomas de depressão e ansiedade ao longo de seis meses.
A escolha do antidepressivo ainda depende, em grande parte, da experiência clínica do médico. Apesar de ser uma decisão comum na psiquiatria e na atenção primária, há poucas ferramentas capazes de orientar essa escolha de forma individualizada.
De forma geral, os antidepressivos apresentam eficácia semelhante em estudos comparativos. O que muda de forma relevante é a resposta de cada pessoa ao tratamento: dados do estudo STAR*D — um dos maiores ensaios clínicos já conduzidos sobre o tratamento da depressão, com cerca de 4.000 pacientes — indicam que apenas 20% a 25% dos pacientes alcançam remissão com o primeiro medicamento utilizado, enquanto metade melhora de forma mínima ou não responde, levando a trocas sucessivas, perda de adesão e falta de estímulo.
Ao longo de anos, pesquisadores buscaram indicadores capazes de prever qual medicamento funcionaria melhor para cada paciente — de exames de imagem a testes genéticos. Até agora, poucos desses achados se mostraram consistentes o suficiente para o uso rotineiro na prática clínica.
A proposta do PETRUSHKA é diferente. Ao contrário de abordagens baseadas em exames ou biomarcadores, a ferramenta utiliza dados que fazem parte da consulta: idade, sexo, índice de massa corporal, gravidade dos sintomas, histórico de tratamentos anteriores, comorbidades e outros medicamentos em uso. Essas informações são combinadas com as preferências que o próprio paciente indica sobre os efeitos adversos que mais quer evitar. O resultado é uma lista personalizada e ranqueada de antidepressivos recomendados.
O ensaio clínico e seus resultados
O estudo foi conduzido em 47 centros no Brasil, no Canadá e no Reino Unido, entre novembro de 2022 e janeiro de 2025. Foram randomizados 540 adultos entre 18 e 74 anos com diagnóstico de transtorno depressivo maior e indicação de tratamento farmacológico.
Funcionou da seguinte maneira: no grupo PETRUSHKA, a ferramenta orientou a escolha do medicamento; no grupo de cuidado usual, o médico prescreveu o antidepressivo que havia selecionado antes da randomização, sem influência da ferramenta. A maioria dos participantes (94%) era proveniente da atenção primária — clínicas no Brasil e no Reino Unido —, enquanto o restante era atendido em serviço de psiquiatria no Canadá.
O desfecho principal do estudo foi a diferença na interrupção do tratamento por qualquer causa nas primeiras oito semanas. Essa medida é considerada pragmática porque engloba diferentes razões para o abandono, desde a percepção de que o medicamento não está funcionando até a desistência por efeitos adversos inaceitáveis.
No grupo PETRUSHKA, 17% dos participantes interromperam o antidepressivo prescrito nesse período, contra 27% no grupo de cuidado usual — uma redução de aproximadamente 38% na probabilidade de descontinuação. A interrupção motivada especificamente por efeitos adversos também foi menor no grupo da ferramenta: 9% versus 16%.
Nas oito semanas, não houve diferença entre os grupos nos dados referentes a depressão e ansiedade. Aos seis meses, o grupo PETRUSHKA apresentou resultados significativamente melhores. O PHQ-9 é um questionário de 0 a 27 pontos que mede a gravidade da depressão — quanto maior a pontuação, mais intensa a depressão. Ao final do seguimento, o grupo da ferramenta registrou média de 7,1 pontos, dentro da faixa considerada depressão leve, enquanto o grupo de cuidado usual ficou em 9,2, ainda na faixa moderada. O mesmo padrão se repetiu na avaliação da ansiedade: pelo GAD-7, os valores foram de 4,6 no grupo PETRUSHKA contra 5,8 no cuidado usual, diferença também estatisticamente significativa. A percepção geral de saúde, medida numa escala de 0 a 100, foi igualmente melhor entre os pacientes que usaram a ferramenta (70,3 versus 66,8).
Um achado que merece atenção é a diferença no perfil de medicamentos prescritos entre os grupos. No grupo de cuidado usual, a sertralina foi o antidepressivo mais frequente (52%), seguida de citalopram (15%) e fluoxetina (9%).
No grupo PETRUSHKA, a mirtazapina (29%), a escitaloprama (29%) e a vortioxetina (24%) foram os mais indicados. Essa mudança no padrão de prescrição levanta uma questão metodológica: o estudo não permite separar com precisão quanto do benefício clínico vem da adequação individual do medicamento e quanto decorre do fato de que, no grupo da ferramenta, outros antidepressivos foram prescritos com mais frequência. Para responder a essa questão, seria necessário comparar a seleção personalizada com uma seleção aleatória que mantivesse a distribuição de medicamentos nos dois grupos.
A análise por subgrupos mostrou que os benefícios foram mais pronunciados na atenção primária. No serviço de psiquiatria no Canadá, os resultados não alcançaram resultados significativos. Os autores sugerem que psiquiatras, por manejarem com mais frequência uma variedade maior de antidepressivos e terem mais tempo para discutir opções com o paciente, podem chegar a resultados semelhantes sem o auxílio de uma ferramenta de suporte. O PETRUSHKA seria, portanto, especialmente útil em contextos em que a depressão moderada a grave é tratada por médicos não especialistas, o que inclui a maior parte dos casos na atenção primária, em unidades de menor complexidade e em países de renda baixa e média.
Limitações, contexto e perspectivas
O estudo tem limitações importantes. O desenho não foi duplo-cego — o que seria inviável eticamente, pois a ferramenta produz recomendações individualizadas e uma versão placebo geraria indicações aleatórias, potencialmente prejudiciais.
Para reduzir o risco de viés, avaliadores e estatísticos não foram informados sobre o grupo de cada participante. Existe também a possibilidade de que pacientes alocados para o cuidado usual, cientes de que não receberam a intervenção experimental, tenham respondido pior do que o fariam fora de um ensaio clínico. Houve um volume expressivo de dados faltantes nos desfechos de seis meses, embora análises de sensibilidade tenham confirmado os achados principais.
Por fim, o PETRUSHKA foi testado apenas na fase aguda do tratamento em monoterapia, não contempla o uso combinado com psicoterapia nem desfechos de longo prazo, e não inclui todos os antidepressivos disponíveis, pois dados individuais de alguns medicamentos não estavam acessíveis aos pesquisadores.
O editorial publicado na mesma edição do JAMA destaca que a lógica do PETRUSHKA é diferente das tentativas anteriores de personalizar o tratamento da depressão. Abordagens baseadas em biomarcadores demandariam dias de espera por resultados e acrescentariam etapas e custos ao processo. A ferramenta, por outro lado, funciona dentro do tempo da própria consulta. Ainda assim, os autores reconhecem que não é possível saber, com o desenho atual, se o benefício vem principalmente da precisão das recomendações da ferramenta, do maior engajamento do paciente na escolha do tratamento ou da combinação de ambos.
Pesquisas futuras deverão incorporar dados de farmacogenômica, escores de risco poligênico e outros marcadores moleculares para aprimorar as recomendações. A abordagem centrada nas preferências do paciente — de aplicação simples, transparente e imediata — demonstrou eficácia clínica onde ela é mais necessária: na atenção primária, onde a maioria dos casos de depressão moderada a grave é tratada no dia a dia.
Jennifer Ann Thomas é uma premiada jornalista brasileira especializada em sustentabilidade. Seu trabalho figura em inúmeras publicações, incluindo Medscape, VEJA, IstoÉ, JOTA, Thomson Reuters Foundation, entre outros.